Cabanagem, uma luta por direitos e cidadania


Imagem / Reprodução da internet

Nesta semana, são celebrados os 187 anos da tomada de Belém, importante marco histórico da Revolução Cabana.


Hoje, 7 de janeiro, é lembrada o Dia da Revolução da Cabanagem, importante história de luta e resistência em vários sentidos, que é tema de diversos estudos. Cada um a seu modo contribui para o entendimento do Grão-Pará naquele contexto e da diversidade do movimento cabano. Ademais, convidam à reflexão sobre quais conexões podemos estabelecer entre as histórias de vida dos sujeitos daquele momento e o que vivemos hoje.


A Cabanagem foi um movimento de caráter revolucionário que devastou a Amazônia por longos anos, na primeira metade do século XIX. A historiografia oficial registra os anos de 1835 a 1840 como sendo o período de sua efetiva ocorrência.


Sem dúvida, a Cabanagem foi um movimento revolucionário, apresentando um toque de maior originalidade e identidade de todo um povo amazonida (quando comparada às outras revoltas que ocorreram no Brasil no mesmo período histórico), e que foi representado pela presença maciça de sua grande maioria indígena, negros e mulheres, em busca de autonomia, postulando igualdade no espaço político e exercendo o governo da Província em dois momentos e por vários meses.


A Cabanagem foi pintada naqueles dias como uma grande ameaça ao Império (apesar de não ter sido separatista) e à civilização. Toda a chacina populacional da Cabanagem, deixou um trauma local e um vazio de explicações.


Ideias libertárias foram marcas presente na Cabanagem, nos movimentos revolucionários europeus, em especial a Revolução Francesa. O desejo de liberdade, expresso com ênfase pelas pessoas envolvidas no conflito. Na Amazônia os povos indígenas foram reduzidos a condição de escravo pela elite luso portuguesa. Os habitantes da província do Grão Pará não se enxergarem como brasileiros e sim amazonidas.


Nenhum movimento revolucionário durante o nosso Período Regencial apresentou como a Cabanagem, uma vinculação tão nítida quanto intensa e abrangente com as classes subalternas, e duramente oprimidas da sociedade, e ao mesmo tempo, conseguiu em alguns momentos seduzir e arrastar pequenos proprietários, artesãos livres, assalariados ligados às diversas atividades mercantis e sacerdotes católicos. As insurreições, os atos de revolta e violentos protestos populares, não eram fatos raros na Amazônia portuguesa. As dificuldades enfrentadas desde o primeiro momento pelos colonizadores em relação ao uso de mão-de-obra indígena foram à razão de inúmeros conflitos com as ordens religiosas, em especial com os missionários Jesuítas.


Os dois séculos de colonização na Amazônia produziram uma população de mestiços – os não brancos – oriundos das várias e sucessivas misturas entre brancos, negros e indígenas, que embora livres, viviam como excluídos na periferia da capital do Grão Pará e em vilas as margens dos rios, sujeitos ao arbítrio do poder dos governantes, temendo o recrutamento para o serviço nas tropas e nas obras públicas sob o jugo tirânico dos oficiais militares.


Hoje a Cabanagem é símbolo de ação popular de massa, de mudanças e de movimentos sociais.

Há um povo das florestas, que vive da extração de produtos da mata e dos rios e em guerra por sua conservação e sustentação. Há um povo indígena multifacetado, mas uníssono na guerra com os brancos e a usurpação que estes continuam fazendo de suas terras e riquezas. Existe ainda um povo afrobrasileiro que cotidianamente reivindica a propriedade de seu território, obtido pela luta quilombola e escrava.


Todos estes povos se deparam constantemente com problemas como a devastação ecológica, a questão fundiária, a miséria e, sobretudo, a falta de acesso à plena cidadania. Sua luta presente também rememora a dos tempos cabanos. Trata-se de povos amazônicos e de uma luta secular que merece ser conhecida e amparada.


Curiosidades:


1. As mulheres foram fundamentais na Cabanagem, pois eram elas que levavam informações e comida para o bando revoltado.

2. A Cabanagem foi uma das poucas revoltas do período regencial que congregou várias classes sociais.

3. Em Belém existe o Memorial da Cabanagem que abriga os restos mortais dos líderes da revolta.

4. Em 2016, a Cabanagem inspirou um musical, escrito por Valdecir Manuel Affonso Palhares e com música de Luiz Pardal e Jacinto Kahwage.

5. No fim da revolta, Belém só tinha mulheres, crianças e idosos. A participação feminina nas conspirações e combates é foco de estudos de muitos historiadores paraenses. Muitas mulheres foram atacadas e violentadas, do lado cabano e das famílias ligadas à Regência. Não há provas de que elas tenham participado das frentes de batalha, mas é certo que atuaram nos bastidores da revolta.

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