Entenda o conflito entre Rússia e Ucrânia que preocupa o mundo

Foto/reprodução


Após Vladmir Putin, presidente da Rússia, autorizar a ação de tropas militares no Leste da Ucrânia, na última quinta-feira (24), os olhos do mundo se voltaram para a região e os impactos do conflito já são perceptíveis nas relações políticas e econômicas que envolvem os dois países.

A Rússia há muito resiste ao movimento da Ucrânia em direção às instituições europeias, tanto a Otan quanto a UE. Sua principal demanda agora é que o Ocidente garanta que a Ucrânia não se junte à Otan, uma aliança defensiva de 30 países.


A Ucrânia compartilha fronteiras com a UE e a Rússia, mas como uma ex-república soviética tem profundos laços sociais e culturais com a Rússia, e o russo é amplamente falado lá.


O que a Rússia quer da Otan?

A Rússia falou de um “momento da verdade” ao reformular seu relacionamento com a Otan. “Para nós, é absolutamente obrigatório garantir que a Ucrânia nunca se torne membro da Otan”, disse o vice-chanceler Sergei Ryabkov.


O presidente Putin explicou que, se a Ucrânia se juntar à Otan, a aliança pode tentar recapturar a Crimeia.


Moscou acusa os países da Otan de “bombardear” a Ucrânia com armas e os EUA de alimentar tensões para conter o desenvolvimento da Rússia. Putin reclamou que a Rússia “não tem mais para onde recuar – eles acham que vamos ficar de braços cruzados?”


Na realidade, a Rússia quer que a Otan retorne às suas fronteiras anteriores a 1997.


Não exige mais expansão para o leste e o fim da atividade militar da Otan na Europa Oriental. Isso significaria a retirada de unidades de combate da Polônia e das repúblicas bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia, e nenhum míssil implantado em países como Polônia e Romênia.

Aos olhos do presidente Putin, o Ocidente prometeu em 1990 que a Otan se expandiria “nem um centímetro para o leste”, mas o fez de qualquer maneira.

Isso foi antes do colapso da União Soviética, no entanto, então a promessa feita ao então presidente soviético Mikhail Gorbachev apenas se referia à Alemanha Oriental no contexto de uma Alemanha reunificada.

Gorbachev disse mais tarde que “o tema da expansão da Otan nunca foi discutido” na

época.


O que os EUA têm a ver?

Os Estados Unidos, como membro da Otan e uma das potências com a maior quantidade de armas nucleares, têm interesses bastante diretos na defesa da Ucrânia.


A preocupação norte-americana se dá, principalmente, pela crença de que, se a invasão da Rússia for bem-sucedida, é possível que a China se sinta encorajada a invadir territórios vizinhos, como Taiwan, o que pode ameaçar o poder dos EUA nas economias mundiais.


Qual a posição do presidente da Ucrânia em meio a esse conflito?

O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky foi eleito, ele era ator de uma das séries mais populares da Ucrânia, ele ficou muito famoso, foi um outsider que venceu a eleição, não tem carreira política, tem o apoio de oligarcas internamente e está em uma situação muito delicada, porque ele já vinha com índices de aprovação muito baixos há algum tempo. Ele acabou 2021 com 20, 25% de pessoas que aprovam o seu governo, o que é um índice muito baixo. Politicamente ele é irrelevante, provavelmente se terminasse o mandato, ele não seria reeleito, não daria continuidade a sua carreira política, mas ele acabou sendo alçado a um a um papel de protagonista nessa crise.


A opinião de muitos analistas é de que ele tem agido com muita serenidade. Ele não tem apelado para clichês populistas, mas ele tem mantido a posição da Ucrânia de defender sua soberania que é a decisão de se alinhar à União Europeia, de pleitear uma candidatura à Otan. Não dá para dizer que ele sai como vencedor, mas é uma figura que sai com uma projeção muito maior do que aquela que ele já tinha antes do segundo conflito, esse conflito agora de 2022.


Como os conflitos na Europa podem respingar no atual cenário econômico do Brasil?

Guerras tem um potencial destrutivo na economia mundial muito grande. Esse conflito - diretamente - não impacta o Brasil. Ele tem um impacto na economia mundial primária, que é a imediata disparada dos preços do petróleo, e isso já vem acontecendo com o barril do Brent ultrapassando os 100 dólares pela primeira vez em sete anos.


Isso tem um impacto na cadeia econômica em cascata que é muito grande, muito forte. A gente vive no Brasil uma condição, no momento, que é: o dólar está caindo ao passo que o preço do Brent está subindo, isso tende a equilibrar a balança no curtíssimo prazo. Mas um desalinhamento entre a Rússia e os Estados Unidos e a Europa, e o realinhamento entre a Rússia e a China mexe com todo o balanço do mercado mundial. Se a China se mantiver alheia a situação, a tendência é que o impacto seja mitigado. Mas se houver uma oposição aos Estados Unidos, essa polarização certamente vai afetar o governo brasileiro e a balança comercial brasileira, dado que a Rússia provavelmente vai sofrer sanções mais severas.


O impacto secundário para a economia mundial é que uma guerra entre dois países como Rússia e Ucrânia, ao mesmo tempo que desconecta um deles - que é a Rússia - do mercado internacional, pois tem um derretimento da bolsa, tem um provável default, tem uma questão com os títulos da dívida... isso também gera um efeito em cascata no mercado internacional. Agora um impacto secundário, sem dúvida, é o fator Ucrânia que também, muito provavelmente, vai declarar um calote, um não pagamento das suas dívidas externas em um curtíssimo prazo e isso gera uma crise de crédito.


Os investidores passam a tirar dinheiro dos mercados que estão mais vulneráveis e passam a colocar dinheiro nos mercados que são mais estáveis. Isso acaba gerando uma instabilidade que afeta petróleo, dólar, commodities... que retira dólares de economias mais fragilizadas, categoria na qual o Brasil se encontra.


Há risco de uma 3ª Guerra Mundial?

A resposta para essa pergunta é: não. Por pior que seja a situação entre Rússia e Ucrânia neste momento, não se imagina um confronto militar direto entre a Otan e a Rússia.

Ao que parece até o momento, a linha vermelha para a Otan é se a Rússia ameaçar algum de seus Estados membros.

12 visualizações0 comentário